Do que vi, ouvi e senti: Encenação 2013 – Fundação da Vila de São Vicente.

22 de janeiro de 2013. São Vicente – SP comemorava 481 anos de sua fundação. Último dia de apresentação do tradicional “maior espetáculo de areia em praia do mundo” neste ano.

O contexto: falta de recursos e investimento – meio a uma crise financeira que vive a cidade – e uma pressão para resgatar a história e dignidade do povo de São Vicente. Seria possível dar certo?

Confesso que estava curioso para o evento deste ano. Um espetáculo que sempre contou com diversos atores globais e colocado como a ação mais importante de cultura no município, neste ano, pelo menos em teoria, seria mais modesto.

Eis que pude sentir, ali, no espetáculo, algo que nunca antes senti: borbulhava, transbordava alucinadamente orgulho. Pessoas comprometidas com a história, com a cidade.

De fato, já não tínhamos mais os vários atores globais e toda uma estrutura de material e investimento artístico. Por outro lado, sobrou coração, sobrou paixão.

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Banda. Evento anterior à apresentação da Encenação da Fundação da Vila de São Vicente – SP.

Da arena, diga-se de passagem com uma paisagem linda, única, fantástica, virada para o mar, sentia a vibração de um a um que participava da peça. Eu vi vicentinos encenando sua história. Eu vi vicentinos voluntários colaborando com sua cidade. Eu vi vicentinos lotando arquibancadas para aplaudir seus concidadãos. Eu vi, ali, humildemente, de um dos bancos da arquibancada, meio a multidão, dedicação, orgulho, vontade e criatividade.

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Trecho da peça. Encenação da Fundação da Vila de São Vicente – SP.

Eu vi pessoas fiéis a arte e a cidade, e não ao espetáculo por si só.

Se faltou estrutura, sobrou paixão.

Se sobrou paixão, tivemos tudo.

Se sobrou paixão, nada faltou.

Uma cena me marcou. O produtor, diretor e ator Amauri Alves, o mentor deste espetáculo em formato de musical de 2013, rendido – completamente rendido – ao final da peça teatral.

Rendido à emoção.

Comemorando o esforço e o sucesso da peça. Aplaudido de pé pelos ali presentes.

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Amauri Alves – diretor, produtor e ator. Encenação da Fundação da Vila de São Vicente – SP.

Uma cena de quem se entrega. Doa-se a arte.

Parabéns, Amauri Alves, em nome de todos envolvidos com o espetáculo.

Parabéns, São Vicente.

Parabéns, vicentinos. Que noite. Que grande noite.

Nós somos a cidade! Feliz aniversário, São Vicente!

Feliz Aniversário, São Vicente – SP.

Sensação única para mim. 22 de janeiro de 2013.

481 anos de história. Porém, primeiro ano após o inesquecível 2012.

Ano que coloquei meu nome a disposição da sociedade ao cargo de vereador nesta cidade e tive a contrapartida dos 823 votos, sendo o candidato mais votado da história do Partido Verde no município.

Não fui eleito. Mas me sinto vitorioso. Vejo, agora – pequenino, ainda muito pequeno – meu nome, escrito na história desta cidade. Com uma campanha diferente do padrão que muito surpreendeu o conservadorismo político.

E por que falo isso? Por que recordo minha campanha para dar às felicitações à cidade?

Porque, como diz no hino do município, vejo uma luz encorajadora – ao fundo – que me permite lutar, praticar a Boa Luta, por este município e seus cidadãos:

“Assim aureolada

Na luz alvissareira

Surgiu predestinada

A célula primeira.”

Marca Kayo Amado
Marca Kayo Amado

Por mais que o cenário político não favoreça; por mais que o governo não compreenda as demandas da sociedade; por mais que existam pessoas desinteressadas pelo bem público representando nossos interesses; por mais que a cidade desmorone, sofra com crises na saúde, educação, segurança, meio ambiente, transporte, limpeza urbana, esporte… de uma coisa eu tenho certeza: A mudança passa por TODOS nós!

Nós, vicentinos, somos a cidade!

Devemos nos ver com parte dela, senti-la, representá-la. Este é o nosso espaço local, é onde vivemos.

Será que vivemos? Ou apenas moramos?

Eu quero “VIVER” aqui!

Andar na rua sem medo, ter acesso a serviços públicos de qualidade, praticar a solidariedade com o próximo e também recebê-la…enfim.

Como diz no Hino, somos “predestinados”.

Se já se foram 481 anos e ainda não conseguimos “VIVER” na cidade, temos duas opções:

ou aceitamos tudo como está,

ou participamos ativamente da vida pública e mudamos nosso presente.

 Parabéns, sociedade vicentina! Coragem! Avante! A mudança AINDA passa por todos nós.

As armadilhas da PEC 33/2012: Queremos construir um país com mais prisões ou com mais escolas?

Retomando as atividades do blog, após um recesso devido a campanha eleitoral, apresento a vocês – caros leitores – o texto que melhor contemplou a minha visão sobre o assunto da redução da maioridade penal, até o momento. O artigo é de autoria da  estudante de direito, Kathrein Palermo, da Faculdade de Direito do Vale do Paraíba – São José dos Campos.

“PEC 33/2012: Redução da maioridade penal. Qual é a sua opinião?


“Se não vejo na criança, uma criança, é porque alguém a violentou antes, e o que vejo é o que sobrou de tudo o que lhe foi tirado”. (Hebert de Souza – Betinho)

Pequeno, olhos vivos e chinelos gastos. Está escuro e ele vem em minha direção. Minha reação instantânea é fechar os vidros. Mas porque esta nossa reação é tão natural? Não me conformo, queria conversar, mas há perigo. E se me assaltar? Antes levasse apenas os bens, valia o risco, no entanto, nos noticiários vemos tantos e tantos casos de que não só as conquistas vão pelo ralo, mas muitas vezes a própria vida.

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Minha mente é bombardeada sobre a discussão ou a falta dela sobre a redução da maioridade penal que prevê a possibilidade de inimputabilidade penal de maiores de 16 e menores de 18 anos.

Segundo a Unesco (relatórios no Site), o Brasil é um país altamente violento, com índice de criminalidade alarmante entre jovens e adolescentes. Além disso, de acordo com o Panorama Nacional: a Execução das Medidas Socioeducativas de Internação do Programa Justiça ao Jovem, do Conselho Nacional de Justiça, datado de 2012, 57% dos jovens declararam que não frequentavam a escola antes de ingressar nas unidades de internação, sendo que 86% dos entrevistados mencionaram que a última série cursada estava englobada no ensino fundamental. E, no que diz respeito à relação com entorpecentes, 75% faziam uso de drogas ilícitas.

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Todos nós queremos uma solução imediata para a insegurança que sofremos, mas enclausurar não é a melhor solução. A redução da maioridade penal não é a solução para a diminuição da criminalidade. A complexidade dessa questão é monstruosa em nosso viés capitalista.

Se perguntarmos à maioria das nossas crianças e adolescentes, estes não têm mais sonhos e projetos de vida. Punir é remédio, mas tratamento significativo é prevenção, é estruturação através de políticas públicas. Como demonstram os dados, esse jovem não encontra ensino de qualidade, na maioria das vezes vem de um lar desestruturado, sem contar a correlação entre crime e dependência química (doença). Tudo tem uma causa. Não podemos considerar e opinar esse assunto complexo, com visão simplista. Não queremos desta forma, proteger o crime, mas combater a causa da violência.

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Há toda uma estrutura cultural de que o crime compensa, e uma questão estrutural não vai ser mudada através de norma punitiva, isso só aumentará o número de encarcerados em nosso sistema prisional. O que tem poder para mudar são as políticas públicas. Até porque, convenhamos, os bandidos de colarinho branco, iate e avião continuarão soltos. O traficante também não será punido por essa medida, mas ela afetará o jovem pobre que roubou para usar droga. Ele não é aplaudido pela mídia quando vai à escola e sim aparece em nossas salas, através dos jornais, quando vai para a Fundação Casa. A PEC servirá para o garoto da favela. A punição é cultural, a prevenção tem que mudar a estrutura, o sistema. O que não gera muitos votos, nem Ibope.

A promulgação dessa Emenda, será um retrocesso no Estatuto da Criança e do Adolescente. Em nenhum lugar do mundo houve experiência positiva de adultos e adolescentes juntos no mesmo sistema penal, isso formará mais quadros para o crime. Sou contra a impunidade, mas reduzir a maioridade penal não é a solução. Para fazer o bom uso do ECA, é preciso competência e vontade. Nossos jovens precisam sair do caminho que os levam para a cadeia. Queremos construir um país com mais prisões ou com mais escolas?”

*Texto de autoria da estudante de direito Kathrein Palermo, a quem agradeço pela colaboração.